Exército digital invisível

A automação vai acabar com os empregos. A inteligência artificial vai mudar totalmente a forma como trabalhamos. Os robôs vão dominar o mercado. Quantas destas frases você já ouviu ao longo da vida?

Microtrampo

A automação vai acabar com os empregos. A inteligência artificial vai mudar totalmente a forma como trabalhamos. Os robôs vão dominar o mercado. Quantas destas frases você já ouviu ao longo da vida? Vez ou outra, surge uma tecnologia que promete revolucionar as empresas e as indústrias, mas, você já se perguntou o que está por trás de tanta inovação? Esses questionamentos podem te trazer uma nova esperança de permanecer em um emprego ameaçado pela automação, porém, as respostas para essas perguntas podem trazer muitos cenários nebulosos e que não estamos acostumados a falar: o microtrabalho digital e os “robôs humanos”. Basicamente, são trabalhadores por trás das maravilhas da tecnologia, mas que ganham muitíssimo pouco para realizar suas tarefas.

Trabalho oculto

Você pode até não ter ouvido falar desses termos, mas certamente sua experiência digital passa por eles. Por exemplo: você já encontrou algum conteúdo violento ou pornográfico no Facebook? Provavelmente não, porque a inteligência artificial da rede reconhece a publicação ofensiva e apaga. Bem, ao menos é isso que o Face quer que você acredite. Na realidade, por trás de um suposto processo de automação inteligente, existe um verdadeiro exército de anônimos para fazer tanto o serviço de moderação das postagens quanto de treinamento para refinar a tal inteligência artificial. Assim sendo, ainda que a robotização ameace muitas funções, ela acaba fazendo surgir diversas novas. O problema é que quase nunca esse pessoal é reconhecido.

Micrograna

Normalmente, os estudos do impacto tecnológico analisam apenas o fim do processo produtivo; isto é, as consequências socioeconômicas da automação e da inteligência artificial. Porém, é preciso entender o que vem antes do uso dessas tecnologias. Esse é o debate defendido pelo sociólogo francês Antonio Casilli, que alega que as pessoas que trabalham para essas empresas recebem microssalários, tipo 1 ou 2 centavos (de qualquer dinheiro), para consumir esse material e avaliar se ele pode permanecer online. E a maioria desses “robôs humanos” trabalham sob condições precárias em países como China, Filipinas, Bangladesh, Índia, Colômbia e Venezuela. Para Casilli, em vez de analisarmos só os dados e os resultados da automação, é preciso compreender de que buraco eles foram tirados e como a aprendizagem das máquinas de fato aprendeu o que sabe.

Funça de monte

Você já pode ter visto várias estatísticas de quantos empregos estariam ameaçados pela automação. O mais famoso estudo é de 2012, foi feito pela Universidade de Oxford, e chegou à marca de 47% dos trabalhadores que seriam substituídos por máquinas. Porém, outra análise feita pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) garante que esse número é bem mais baixo: 9%. Ainda que a automação seja excelente para as empresas, já que aumenta a produtividade, ela não vai necessariamente acabar com as funções. Ou seja, o mercado acaba se remodelando conforme a necessidade. Casilli também lembra que os empregos “foram ameaçados” com a revolução industrial do início do século 19, mas quantas funções acabaram desde então? E quantas surgiram? Várias!

Plataformização do trampo

Até aqui, você já conseguiu se imaginar nesse cenário? E se dissermos que você está trabalhando “de graça” para a automação? Tudo o que você faz ou consome digitalmente gera um dado. E esses dados são geridos por dados. No fim da cadeia, é preciso que uma máquina interprete tudo isso, mas também é necessário uma pessoa para ensinar como isso é feito. Há uma fragmentação do comportamento para que ele seja absorvido pela máquina. Todo esse trabalho digital tem sido impulsionado pelas plataformas (Uber, iFood, Netflix e por aí vai) e executado mediante cliques rápidos – é o tal do microtrabalho digital. As pessoas são “pagas” para clicar e criam verdadeiras “fazendas digitais” para ganhar dinheiro, mas que nem sempre garantem muito retorno.

Ciclo sem fim

Essas fazendas de cliques estão cada vez mais populares. Muitos influenciadores recorrem a elas para gerar engajamento “real” em seus conteúdos, mas isso acaba criando números mascarados da realidade. E não importa o valor pago: o que chega até os humanos robóticos que executam essas tarefas é irrisório. Por isso, quem tenta arranjar uns trocados dessa maneira acaba trabalhando com diversas contas, além de muitos computadores ou celulares – uma realidade que não podemos mais deixar oculta e que depende da gente mudar. A pergunta que fica é: que tal começarmos a discutir a importância dessa galera invisível para o futuro?


Fonte: https://www.tecmundo.com.br/the-brief

Publicado por luizguilhermeguedes

| guedesonline.com | @guedesonline |

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: